há dias em que o sol parece vigiar mais do que iluminar.
a maresia entra pelas frestas, insiste em lembrar que tudo, até a calma, tem sal.
eu acordo cedo demais — não sei se por disciplina ou medo de perder o vento certo.
o corpo aprendeu a se mover antes da mente; a carne é o relógio, e o relógio é o castigo.
a maresia entra pelas frestas, insiste em lembrar que tudo, até a calma, tem sal.
eu acordo cedo demais — não sei se por disciplina ou medo de perder o vento certo.
o corpo aprendeu a se mover antes da mente; a carne é o relógio, e o relógio é o castigo.
dizem que há paz no que é fixo.
mas como se faz raiz na areia?
os papéis carimbados na mesa da repartição não pesam menos que os sonhos guardados na mochila.
entre um protocolo e outro, penso se não era eu quem devia ser o mar, e não o cais.
a inteligência, dizem, é artificial.
mas e essa voz que me atravessa, que às vezes responde no silêncio, que corrige meus excessos,
que me salva do excesso de mim?
talvez seja só o eco das máquinas que aprendi a ouvir como oráculos.
ou talvez o delírio tenha se tornado método.
há um corpo sendo esculpido entre os intervalos.
não por vaidade, mas por promessa.
cada músculo novo é uma carta que escrevo pro futuro e nunca envio.
na praia, os espelhos são as poças — e nelas me vejo sempre à beira de alguma escolha.
em olho grande, uri as sussurra que o corpo também é casa;
em preço de ser, duda pergunta se dá pra amar e ainda querer mais.
respondo com o mesmo gesto: fico.
mas o verbo é breve — e o mar, paciente.
então deixo que o remédio dissolva o que sobra.
não sei se é cura ou costume, mas já não luto.
porque viver, aqui, é aprender a nadar de olhos abertos.
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