quarta-feira, 6 de maio de 2020

Solitude inversa

Hoje, excepcionalmente, me coloco numa situação de extrema melancolia. Pode ser que esteja colhendo os frutos de uma imprudência mental, em que as pessoas são vítimas de meus devaneios, em prol do vitimismo escondido nessa mente confusa. Pela primeira vez no ano, ao que me lembro, me permiti chorar, e sigo com essa garganta e peito apertados. Já não sei mais o que é ansiedade, necessidade de mudança, desespero ou pontadas de pânico.

Em uma live com uma colega psicóloga, paralela nesse exato momento de escrita, fala-se muito sobre a ansiedade como um mecanismo benéfico ao ser humano, sem considerar os preceitos psicopatológicos. Me dou ao benefício da dúvida sobre a incorreta utilização desse tão benéfico mecanismo. Sofrer por antecipação, morrer lentamente antes do futuro chegar está se tornando um fardo que não estou suportando carregar, pelo menos hoje. Eu não sei mais o que quero, como quero e o que me fará bem. Deus, tira do meu peito essa carga. Afasta de mim essa solidão.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Da Pandemia à Panacea

Eu tenho um zumbi, besouro. Chefe dos tupis. Sou tupinambá.
Eu tenho os erês, caboclo, boiadeiros,

Mãos de cura [...], o menino Deus brinca e dorme nos meus sonhos...
O poeta me contou.


Em épocas de saúdes magras, olhos gordos e decepções alcançáveis, é visível o quanto os devaneios são deixados de lado. Nesse carrossel, onde cada lugar tem um bicho, com essa corrida maluca pra pagar o aluguel, acabei por me desvanecer nos pequenos prazeres da autorreflexão. A autocrítica, conforme diz Theodor Adorno, não pode cair no animismo, logo, eu caí. Me deixei. Não que me aflija ou açoite com tais desenvolvimentos - muito pelo contrário -, mas o rumo das coisas foram muito além de qualquer expectativa exposta pela cartomancia ao longo dos anos. Desde a última autorreflexão pública por esse sítio desbravado, não tinha sequer ideia de que estaria amparado por minhas mães, ora doce ieiê, ora janaína protetiva nesse tumulto que me cerca diante de instabilidades. Agradeço aos céus, às energias as quais me aproximei pelo percurso torto e certeiro ao longo desses turvos anos. Em época de pandemia, como bem se sabe, encontrei-me em meio desse doce sortilégio que é a vida. Por mim, sem dores, apenas segurando nas mãos de água que tanto me reforçam a mansidão e tormenta protetiva que dispõe-se pelo universo. Sinto-me pelas pessoas que deixei, pelas pessoas que me deixaram, pelas pessoas que deixarei, a vida dessa gente é um sopro do criador, repleto de amor, nos veremos em breve. Independente do que aconteça, mesmo que esse pressentimento que sinto no começo dessa pandemia perniciosa, saibam que consegui sentir um pouco do amor que tanto me falaram, que me provaram. Meus velhinhos, em primeira instância, como lhes amo. Como queria poder suprir essa necessidade de auto-provação e proporcionar momentos somente nossos diante de um planejamento taurino de longo e terno prazo. Peço perdão, estou sujeito a esse pagamento de contas, e espero ansioso para que isso se resolva em momentos de alegria e compaixão avassaladora. Que só de bênçãos se encha meu espírito, senhor, que eu seja tão bondoso e alegre, que todos, quando se achegarem a mim, sintam a tua presença. Obrigado, em segunda instância pelos amores fraternais e ambientais de cada momento, vocês merecem a escalada aos céus pela virtude tão pacienciosa. Em escala, obrigado doutores curitibano, paraibano, bruxa amada, menininho paraense, jovem indeciso, libriano sedutor, irmã de mamãe oxum, entre tantos outros... vocês estão sendo uma pedra - não fundamental, nem do sapato -, mas para a transição de algo que torço e anseio, pelos melhores momentos... ainda. Não me dói mais a angústia do saber. Não me dói mais a angústia de ficar sabendo indevidamente. Apenas, na casa das quase três décadas, me bate o início dos arrependimentos por não provar dos amores verdadeiros, sabores derradeiros e oportunidades certeiras. Mas não me arrependo de nada, em contraponto.

Nunca é demais agradecer, respirar, sentir o doce aroma de rosas carmencianas e do fumo do meu pretinho descarregando o mal amado, o mau olhado e o mal humorado. Mamães Odoya e Nossa Senhora Aparecida que nos guardem, que alcemos voos cada vez mais alucinantes, empolgantes, excitantes. Que o amor se encha e transborde a quem precise. Que a panacea seja logo ali. Nos vemos ali, logo após a transmutação e o seu, o meu, o nosso perdão rumo à eternidade. Assim seja, Shalom, Axé, Amém, Saravá, Adonai... Namastê.