segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Maré baixa, corpo cheio

há dias em que o sol parece vigiar mais do que iluminar.
a maresia entra pelas frestas, insiste em lembrar que tudo, até a calma, tem sal.
eu acordo cedo demais — não sei se por disciplina ou medo de perder o vento certo.
o corpo aprendeu a se mover antes da mente; a carne é o relógio, e o relógio é o castigo.

dizem que há paz no que é fixo.
mas como se faz raiz na areia?
os papéis carimbados na mesa da repartição não pesam menos que os sonhos guardados na mochila.
entre um protocolo e outro, penso se não era eu quem devia ser o mar, e não o cais.

a inteligência, dizem, é artificial.
mas e essa voz que me atravessa, que às vezes responde no silêncio, que corrige meus excessos,
que me salva do excesso de mim?
talvez seja só o eco das máquinas que aprendi a ouvir como oráculos.
ou talvez o delírio tenha se tornado método.

há um corpo sendo esculpido entre os intervalos.
não por vaidade, mas por promessa.
cada músculo novo é uma carta que escrevo pro futuro e nunca envio.
na praia, os espelhos são as poças — e nelas me vejo sempre à beira de alguma escolha.

em olho grande, uri as sussurra que o corpo também é casa;
em preço de ser, duda pergunta se dá pra amar e ainda querer mais.
respondo com o mesmo gesto: fico.
mas o verbo é breve — e o mar, paciente.

então deixo que o remédio dissolva o que sobra.
não sei se é cura ou costume, mas já não luto.
porque viver, aqui, é aprender a nadar de olhos abertos.

domingo, 24 de novembro de 2024

O futuro a dEUs

É tão interessante como a inexatidão dos fatos trazem uma nova realidade. Hoje, nessa data e nas anteriores, consigo compreender melhor que o desespero, a influência e a predestinação estão em ritmos aflorados e constantemente alinhados. Sabe-se lá quando isso tudo começou a funcionar, mas funcionou. Estou aqui. Estarei lá em breve. Consegui tudo e mais um pouco, a troco do quê? A troco de muito merecimento.

Hoje digo com razão, que mesmo com tanta incerteza, ainda  mantenho  a chama da gratidão, por mais difícil que seja fazer essa manutenção.

Dê à ingenuidade adeus. 
Dê a ingenuidade a Deus. 

Iemanjá, estou indo ao seu encontro. 

domingo, 24 de julho de 2022

Desconexão febril

Eu sinto na rima calada, querendo ou não te querendo é quase nada, ou quase nada ou quase nada.
O vazio ainda me consome, na rotina exaustiva, na dúvida eterna, no gosto herege capitalista. Ao meu lado, alguém que não consegue me perder, me desver, mais sofrer. Isso me angustia, mas como disse Mary D’Oxum, é um destino lindo. Mas por hora, mãe, sem ânimos aflorados e divertidos à base do reto, straight on the point. 
Só preciso me livrar da última etapa da minha vida adulta, é como um casamento conturbado, só que, nesse caso, com a ciência pobre e enxuta. Axé. Shalom. Adonai.  

Amém. 

E sem mais delongas, Senhor Tranca Rua, laroyê. 

Confio em ti. 

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Ah! Dor

Dói demais, não se sabe exatamente onde, nem por quê, mas dói. É uma vontade de correr, mas ter o cansaço necessário pra não sair de casa. É ter um desejo de consumir, mas se limitar por fatores externos e praticar a anulação. É se olhar no espelho e perceber que se está sozinho, mas não por influência de outrem, mas sim, porque não se encontra mais, não se acha mais, não se sabe mais o que o futuro pretende mostrar.


É exaustivo, dói. E como dói. Chorar não adianta mais, sofrer não resolve mais. O corpo sabe disso, mas a mente... bem, ela não identificou essa chave-motriz para fazer tudo voltar ao normal. Autoestima já virou artigo de luxo. Disciplina já se extinguiu. Sobra então... bem, já não se sabe mais o que sobra. Já não se tem mais nada a perder, a ganhar. Dói. Muito.

terça-feira, 18 de maio de 2021

Vem aí (?)

Mudanças, mudanças, mudanças. O macaco continua pulando de galho em galho, o peixe continua escorregando entre as rochas e invadindo novos mares. A pressão sobe, os ânimos descem, mas, de forma mais aconchegante, a sensação de solitude agora deu vazão ao caráter duplo, não mais individualizado e sombrio. A falta de noção sobre merecimento cresce da mesma proporção que a insegurança para com um futuro não tão distante. Espero, sinceramente, sencillamente, que a próxima vez que eu leia esse blog, eu ainda esteja vivo para comemorar tantos esforços e lutas colecionadas ao longo desses últimos anos. E, se caso não estiver, que fique meu desabafo sobre as injustiças dessa vida, tão acumuladas por um filho de Xangô indignado.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Solitude inversa

Hoje, excepcionalmente, me coloco numa situação de extrema melancolia. Pode ser que esteja colhendo os frutos de uma imprudência mental, em que as pessoas são vítimas de meus devaneios, em prol do vitimismo escondido nessa mente confusa. Pela primeira vez no ano, ao que me lembro, me permiti chorar, e sigo com essa garganta e peito apertados. Já não sei mais o que é ansiedade, necessidade de mudança, desespero ou pontadas de pânico.

Em uma live com uma colega psicóloga, paralela nesse exato momento de escrita, fala-se muito sobre a ansiedade como um mecanismo benéfico ao ser humano, sem considerar os preceitos psicopatológicos. Me dou ao benefício da dúvida sobre a incorreta utilização desse tão benéfico mecanismo. Sofrer por antecipação, morrer lentamente antes do futuro chegar está se tornando um fardo que não estou suportando carregar, pelo menos hoje. Eu não sei mais o que quero, como quero e o que me fará bem. Deus, tira do meu peito essa carga. Afasta de mim essa solidão.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Da Pandemia à Panacea

Eu tenho um zumbi, besouro. Chefe dos tupis. Sou tupinambá.
Eu tenho os erês, caboclo, boiadeiros,

Mãos de cura [...], o menino Deus brinca e dorme nos meus sonhos...
O poeta me contou.


Em épocas de saúdes magras, olhos gordos e decepções alcançáveis, é visível o quanto os devaneios são deixados de lado. Nesse carrossel, onde cada lugar tem um bicho, com essa corrida maluca pra pagar o aluguel, acabei por me desvanecer nos pequenos prazeres da autorreflexão. A autocrítica, conforme diz Theodor Adorno, não pode cair no animismo, logo, eu caí. Me deixei. Não que me aflija ou açoite com tais desenvolvimentos - muito pelo contrário -, mas o rumo das coisas foram muito além de qualquer expectativa exposta pela cartomancia ao longo dos anos. Desde a última autorreflexão pública por esse sítio desbravado, não tinha sequer ideia de que estaria amparado por minhas mães, ora doce ieiê, ora janaína protetiva nesse tumulto que me cerca diante de instabilidades. Agradeço aos céus, às energias as quais me aproximei pelo percurso torto e certeiro ao longo desses turvos anos. Em época de pandemia, como bem se sabe, encontrei-me em meio desse doce sortilégio que é a vida. Por mim, sem dores, apenas segurando nas mãos de água que tanto me reforçam a mansidão e tormenta protetiva que dispõe-se pelo universo. Sinto-me pelas pessoas que deixei, pelas pessoas que me deixaram, pelas pessoas que deixarei, a vida dessa gente é um sopro do criador, repleto de amor, nos veremos em breve. Independente do que aconteça, mesmo que esse pressentimento que sinto no começo dessa pandemia perniciosa, saibam que consegui sentir um pouco do amor que tanto me falaram, que me provaram. Meus velhinhos, em primeira instância, como lhes amo. Como queria poder suprir essa necessidade de auto-provação e proporcionar momentos somente nossos diante de um planejamento taurino de longo e terno prazo. Peço perdão, estou sujeito a esse pagamento de contas, e espero ansioso para que isso se resolva em momentos de alegria e compaixão avassaladora. Que só de bênçãos se encha meu espírito, senhor, que eu seja tão bondoso e alegre, que todos, quando se achegarem a mim, sintam a tua presença. Obrigado, em segunda instância pelos amores fraternais e ambientais de cada momento, vocês merecem a escalada aos céus pela virtude tão pacienciosa. Em escala, obrigado doutores curitibano, paraibano, bruxa amada, menininho paraense, jovem indeciso, libriano sedutor, irmã de mamãe oxum, entre tantos outros... vocês estão sendo uma pedra - não fundamental, nem do sapato -, mas para a transição de algo que torço e anseio, pelos melhores momentos... ainda. Não me dói mais a angústia do saber. Não me dói mais a angústia de ficar sabendo indevidamente. Apenas, na casa das quase três décadas, me bate o início dos arrependimentos por não provar dos amores verdadeiros, sabores derradeiros e oportunidades certeiras. Mas não me arrependo de nada, em contraponto.

Nunca é demais agradecer, respirar, sentir o doce aroma de rosas carmencianas e do fumo do meu pretinho descarregando o mal amado, o mau olhado e o mal humorado. Mamães Odoya e Nossa Senhora Aparecida que nos guardem, que alcemos voos cada vez mais alucinantes, empolgantes, excitantes. Que o amor se encha e transborde a quem precise. Que a panacea seja logo ali. Nos vemos ali, logo após a transmutação e o seu, o meu, o nosso perdão rumo à eternidade. Assim seja, Shalom, Axé, Amém, Saravá, Adonai... Namastê.